A premiação de Herta Müller com um Nobel de literatura causou surpresa na Alemanha e no mundo. Podemos discutir os méritos da escritora à luz de suas obras, o que para o público brasileiro não seria fácil, existe somente uma obra traduzida de Müller em nosso idioma, mesmo existindo uma unica obra, mesmo assim discutir sua qualidade literária seria aceitável. Evidente que aqui deveríamos levar fatores em consideração, como a qualidade da tradução, e finalmente usando o bom senso concluirmos que mesmo os grandes escritores podem produzir obras pequenas.
Meu ponto aqui não se concentra na discussão da qualidade literária de Herta Müller, mas no tipo de notícia que se produz sobre esta qualidade se usando argumentos primários, fracos ou até mesmo infantis.
Em blogs obscuros é possível se encontrar todo tipo de asneira, mas num jornal como o Estadão encontrar afirmações como “escritora de segunda-categoria”, uma afirmação construída de forma estranhamente diletante , o cheiro de manipulação política se intensifica num grau que até este blogueiro, cuja paciência é quase inesgotável, acaba sendo obrigado a ir ao teclado e registrar alguns pensamentos.
Herta Müller
Com certeza a escritora não é uma unanimidade sequer na Alemanha. Discussões sobre as circunstâncias do regime comunista romeno e sobre sua vida pregressa já ocuparam bom espaço em blogs políticos alemães mesmo antes da premiação com um Nobel de literatura, no entanto o retrato da brutalidade do regime de Ceausescu , seu registro é um ganho para a humanidade, não há como duvidar disto.
A imprensa brasileira e a premiação
Como natural de São Paulo creio ser normal que me concentre na imprensa do meu estado e cidade natal, sem bairrismo aqui, aprecio a imprensa carioca da mesma forma, confesso não ler outras publicações além do eixo Rio-SP, mas isto não é determinado por nenhum sentimento em especial, e neste caso comento dois jornais paulistanos que trataram o tema de forma diversificada.
A notícia da Folha retratou o caso com frieza e competência, foi através deste jornal que descobri o link para download da última obra da escritora, o “Atemschaukel”, pena que leitores brasileiros ficaram na mão, a Libreka.de, empresa que disponibilizou a obra não oferecia o download para leitores fora da Alemanha e a obra foi oferecida no original em alemão, o que restringe o acesso de forma considerável, no entanto a Folha concedeu um serviço em tanto, estou lendo o livro, que não é coisa leve nem fácil.
Já no Estadão a situação foi um pouco diferente, e aqui me remeto ao blog publicado pelo jornalista Daniel Piza e sua inexplicável afirmação.
Ao abrir a primeira página eletrônica do Estadão me deparo com uma manchete no canto inferior esquerdo com o seguinte…
“Herta Müller..uma escritora de segunda categoria”.
Como acompanho com certa proximidade o tema seria evidente que seguiria o link para a matéria, o que encontrei me deixou tanto surpreso como realmente decepcionado com um blog que por estar alojado dentro de um veículo de comunicação como o Estadão deveria seguir alguns critérios de qualidade, a matéria publicada me causou a sensação de assistir uma manifestação política apresentada como critica literária.
O blogueiro em questão leu um unico livro da escritora, a partir daí a conceituou como sendo “de segunda-categoria”.
O problema com este tipo de afirmação não reside somente no fato de que críticos não estabelecem um juízo desta natureza usando um livro como referência somente, e se levamos em consideração que a única obra disponível em português passou por uma tradução e que existem “traduções” e “traduções”, então antes de sair disparando afirmações como amoklaufer e matar a dona na primeira cacetada, seria mais correto pensar um pouco antes de se escrever, Daniel Piza não fez isto e não concedeu o direito da dúvida à autora, o livro comentado, a tradução de sua obra poderia gerar alguma coisa sobre este ser um livro de “segunda categoria”, mas taxar logo a escritora ? Estranho.
As críticas feitas atualmente a Herta Muller não seriam tão interessantes se não reunissem aspectos políticos relevantes à Europa, à Alemanha e até aos USA.
Em primeiro lugar a premiação de Obama para o Nobel da Paz lançou uma luz muito diferente sobre a instituição que concede esta honra, apesar de estarmos falando de prêmios diferentes, em áreas diferentes do gênio humano, o impacto político do caso Obama acaba se irradiando para as demais modalidades, o caso Herta Müller se enquadra muito bem aqui.
De uma hora para outra grupos pelo mundo afora começam a ver o prêmio como algo “da Europa” e assim deveria ser arquivado em algum canto escuro do esquecimento, para um país que ruma a passos largos senão à insignificância, pelo menos à uma importãncia bem menor a alguma que já tenha possuído, verificar que um comitê europeu tenha tanto poder em exercer influência dentro de seu país do que qualquer outro grupo local, e o prêmio à Obama chocou os us americanos, isto abalou profundamente um povo que percebe sem poder evitar, o declínio de seu império.
Herta Müller pois, pegou a rebarba deste sentimento anti-europeu e anti-Nobel, existem no entanto agravantes no caso.
A premiada é filha de um ex Waffen SS e aqui sentimentos anti-teutônicos desempenham também seu papel. Na Polônia os comentários foram similares aos publicados no blog do Estadão ( jornal “Rzeczpospolita”) , mas ao contrário do blog brasileiro que preferiu justificar uma opinião de forma não muito feliz, os poloneses foram ao ponto.
Na opinião polonesa o que ocorre é uma tentativa em se se alterar o status alemão na hierarquia das vítimas do nacional-socialismo, ou mesmo que estão querendo transformar os alemães em vítimas. Um pouco pior, na opinião polonesa a filha de um ex SS não seria honrada o suficiente para receber tal prêmio.
Opiniões políticas à margem do tema
A discussão, (se o leitor ainda não conseguiu entender o tema é realmente complexo) gravita também no eixo Polônia-República Tcheka e Alemanha. Num momento em que o Tratado de Lisboa da União Européia começa a assumir contornos de um fato, e este tratado é antes de mais nada uma constituição européia pois abre portas jurídicas às minorias alemãs que foram expulsas nos dois países acima, Herta Müller apesar de não possuir ligação seja com a Polônia seja com a R.Tcheka é membro de uma minoria alemã romena, para grupos preocupados com processos judiciais para reintegração de posses confiscadas aos alemães a honra à Müller não poderia vir em hora pior.
Por fim temos aqui os USA e sua tentativa em sabotar o processo de integração européia via leste europeu. Desde Bush as tentativas foram ferrenhas, seja com a instalação de prisões secretas pela CIA em solo europeu, seja com a tentativa em se instalar mísseis na fronteira com a Rússia ou mesmo a ingerência US americana no processo eleitoral europeu na Irlanda, onde obtiveram sucesso numa primeira votação. A consolidação da União Européia em seu novo formato faz a NATO ser obsoleta, com isto e mais uma série de fatores econômicos decorrentes de uma comunidade quase federalista européia com um mercado de mais de 500 milhões de consumidores, o caminho dos USA como potência única dominante tem seus dias contados. Grupos que concedem apoio incondicional aos USA não podem deixar a crítica à Europa cair no vazio, e no Brasil estes grupos são bastante ativos.
Evidente que se consideramos a situação de ingerência dos USA em assuntos da formação da Federação Européia via leste europeu temos que considerar também que os novos membros do antigo bloco comunista são dirigidos por governos corruptos formados à sombra do totalitarismo, opressão e violência, com tradição democrática zero, exatamente esta porta da corrupção e da vileza os USA utilizaram, a vinda de Obama e a crise financeira fizeram os planos de conquista pela divisão irem por água abaixo.
O tema passa ainda pela formação de uma consciência de cidadania na Alemanha, Herta Müller pertence ao processo, a discussão prossegue de forma mais que interessante, a Europa era uma colcha de retalhos formada por nações que carregavam o peso de séculos de guerras e destruição, hoje é o maior laboratório social e político do mundo, e isto meus caros, é fascinante.
Um artigo interessante você pode ler aqui…Why Herta Muller matters publicado no suplemento cultural do Guardian, no outro extremo do julgamento um link brasileiro…com um artigo polêmico, para expressar a coisa de forma civilizada…. se levamos a sério o uso de “Besta” como adjetivo só podemos concluir que os brasileiros estão mal servidos.
“Agora, para uma tal de Herta Müller, nascida na Romênia mas apresentada como alemã (escreve em alemão).”….”..“Besta” Müller decerto não tem uma obra consistente como a de Roth, McEwan, Llosa e Martin Amis, mas os julgadores do Nobel, novidadeiros e ideológicos, como são em geral os acadêmicos,…”
Sem dúvida uma análise “boa para burro”.